terça-feira, 11 de julho de 2017

e o mostrengo rondou
a alma, três dias,
lembrando que o coração,
ainda e sempre,
é mais do que eu

boa noite querida insónia

sexta-feira, 23 de junho de 2017

sábado, 10 de junho de 2017

La petite mort

perdoo-te se já não escrevo
perdoa-me se já não me lês
se o meu lirismo foi sempre,
sonho que não me saiu do peito,
pequeno burguês.

que os amores simples
se deixam ofuscar pelo fulgor
das noites boémias e pseudo-intelectuais
de itinerário definido
e de poetas em fornada de fabrico (im)próprio
meia-luz, penumbra, sarçal literário
de cigarro acesso e je te veux na boca.

que a decadência é uma volúpia passageira
à noite, dorme connosco na cama
mas não nos dá de comer, o Sol que nasce,
amor, acabado de fazer com o café da manhã

cada pequena morte, crescendo
que se agigantava às tuas mãos
saliva, seiva, sémen,
meu corpo semeado
crê, foi sempre
poema em construção.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

sábado, 25 de abril de 2015

Bandeira cravo em floração


















Se uma flor de Abril
pousar entre as tuas mãos
bandeira, pétala, semente
voando ao vento
a meus olhos será esperança
nascendo dos nossos braços
de par em par
porta que o vento abre
janela para a alma dos homens
que semearam o seu corpo
para ver nascer de si a liberdade
erguida, florindo em volta
cravo no interior das mãos.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Já se ouvem os pequeninos passos das lagartixas no telhado de madeira.
O calor abraça a casa com uma ternura velha e conhecida, regressa devagar como o tempo que se arrasta nos passos que sobem, devagar. a calma momentânea, escutando o som das escadas feitas por mãos que destilaram amor de carpinteiro como o bicho que agora as come, rangem sob meus pés.
E mesmo no topo rodo a cabeça para a esquerda e a pequena janela saúda-me com esperança vestida de árvore plantada há muitos anos para mim. Já nevou todas as pétalas sobre a terra ocre e o verde cobre-lhe os braços que abrigam melros cantando.
O dia vai fechando a luz esperando a noite.
Que meu peito saiba guardar sempre os pequenos momentos para valorizar os grandes sempre que os veja.

Editors "No sound but the wind"

domingo, 19 de abril de 2015

não há violência em meu peito
e no entanto por que me sinto doer?
corações guerreiros
são mundos longínquos
luzes que vimos distantes
certamente caminhos
chamando. archotes
ardendo. cidades na noite
incandescente
e colheremos o que tecermos
nos fios das estrelas

e a estrada segue
labiríntica e infinita.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

dire l'orazione della bertuccia

os cães comer-te-ão a alma
se os deixares
rasgando a tez, até ao osso
matilha afiada de dentes
expostos, vorazes fila
que rosnam a voz surda
de raiva macaca.


margarida

margarida amava como uma flor
os olhos e o rosto errado
e prendeu o coração em porto vão
e abriu as mãos a vãs promessas
e perdeu-se no caminho...

peito aberto ao sol
olhos miau, mas tudo o resto,
o corpo, vestia-o de inocência
a carne despi-a,
convidava a deitar
mas nunca a dormir
deu-se à noite em pleno dia
numa qualquer esquina
em qualquer cidade
neste ou noutro país
margaridas são sempre flores.
os corações armados até aos dentes
de amor à queima roupa
são obstinados.
Insistem em sangrar
e rodeiam-se de arame farpado
rodando a língua mestra
em palavras
sufocadas pelos dentes
beijos que a boca mastiga
e raramente deita fora
um rastilho, dor fina
que vai consumindo mas
sem se consumar
nas veias sempre
espessando o sangue
caso de vida ou de morte.


quinta-feira, 2 de abril de 2015