quinta-feira, 21 de junho de 2018


Existe um espaço no centro do coração que não julga, não lembra e não questiona. Faz, cuida, ama. Está presente quando todos os outros se ausentam.
Passaram 18 anos. Para trás uma mulher doente esperando a sobrevida, broto que se faça ficatu. Quatro filhos, dois menores.
Faz as malas e mudasse para outras paragens.
"-Estão todos criados" palavras da mãe actos dos filhos na ausência de pai e cuidados contínuos da mãe em tempos de espera.
As doenças perlongadas são a falência financeira e emocional das famílias, esta não foi exceção. Ou melhor foi porque a jangada que restou ainda flutua é emocional unida e próxima.

Quantas companheiras, mulheres, amantes cabem numa vida? Vêm e vão ao redor da cama mas nenhuma fica.

Despe-se da pele gasta e definha. Só alma, longas conversas. Só Ossos. Só fragilidade.
Todos morremos sós mas ninguém deve morrer em solidão.

sábado, 16 de junho de 2018

...

um paliativo de cada vez
meu pai está a morrer.

O senhor da cama ao lado dorme
e um sol imenso inunda o quarto de luz.
hora de almoço
chegam ao quarto, vindos do corredor,
cheiro a sopa, café, éter
vozes, conversas e risos
"Então! vamos comer?"
alimenta-se a vida,
finta-se a morte,
dá-se amor,
uma colher de cada vez.

domingo, 29 de outubro de 2017

divago...

Mas isto sou eu que já não sei nada
e do nada pouco resta rente a meus pés
flores e sol-posto de verão vestido
dedos finos por entre a folhagem, luz.

Está calor em outubro quase novembro
põe-se a noite, a janela aberta
em pleno firmamento iluminado, estrelas.

A laranjeira em caos deixa morrer os frutos,
queda livre em direcção ao pouco verde
e um outono estranho com sabor a verão arde,
muda a hora e começa de novo, dia.

Já não escrevo, bem sei,
mas a poesia dos outros ainda me habita
os dedos, os olhos, nervos,
sentidos      versos escritos cheios de alma
no fim; do poeta só resta o poema?

terça-feira, 11 de julho de 2017

e o mostrengo rondou
a alma, três dias,
lembrando que o coração,
ainda e sempre,
é mais do que eu

boa noite querida insónia

sexta-feira, 23 de junho de 2017

sábado, 10 de junho de 2017

La petite mort

perdoo-te se já não escrevo
perdoa-me se já não me lês
se o meu lirismo foi sempre,
sonho que não me saiu do peito,
pequeno. burguês.

que os amores simples
se deixam ofuscar pelo fulgor
das noites boémias e pseudo-intelectuais
de itinerário definido
e de poetas em fornada de fabrico (im)próprio
meia-luz, penumbra, sarçal literário
de cigarro acesso e je te veux na boca.

que a decadência é uma volúpia passageira
à noite, dorme connosco na cama
mas não nos dá de comer, o Sol que nasce,
amor, acabado de fazer com o café da manhã

cada pequena morte, crescendo
que se agigantava às tuas mãos
saliva, seiva, sémen,
meu corpo semeado
crê, foi sempre
poema em construção.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

sábado, 25 de abril de 2015

Bandeira cravo em floração


















Se uma flor de Abril
pousar entre as tuas mãos
bandeira, pétala, semente
voando ao vento
a meus olhos será esperança
nascendo dos nossos braços
de par em par
porta que o vento abre
janela para a alma dos homens
que semearam o seu corpo
para ver nascer de si a liberdade
erguida, florindo em volta
cravo no interior das mãos.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Já se ouvem os pequeninos passos das lagartixas no telhado de madeira.
O calor abraça a casa com uma ternura velha e conhecida, regressa devagar como o tempo que se arrasta nos passos que sobem, devagar. a calma momentânea, escutando o som das escadas feitas por mãos que destilaram amor de carpinteiro como o bicho que agora as come, rangem sob meus pés.
E mesmo no topo rodo a cabeça para a esquerda e a pequena janela saúda-me com esperança vestida de árvore plantada há muitos anos para mim. Já nevou todas as pétalas sobre a terra ocre e o verde cobre-lhe os braços que abrigam melros cantando.
O dia vai fechando a luz esperando a noite.
Que meu peito saiba guardar sempre os pequenos momentos para valorizar os grandes sempre que os veja.

Editors "No sound but the wind"

domingo, 19 de abril de 2015

não há violência em meu peito
e no entanto por que me sinto doer?
corações guerreiros
são mundos longínquos
luzes que vimos distantes
certamente caminhos
chamando. archotes
ardendo. cidades na noite
incandescente
e colheremos o que tecermos
nos fios das estrelas

e a estrada segue
labiríntica e infinita.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

dire l'orazione della bertuccia

os cães comer-te-ão a alma
se os deixares
rasgando a tez, até ao osso
matilha afiada de dentes
expostos, vorazes fila
que rosnam a voz surda
de raiva macaca.